Testemunho de Frederico: um voluntário na ilha de Lesvos

Cheguei a Mytilini, Lesvos, no primeiro de Maio para trabalhar enquanto voluntário no auxílio à crise de refugiados que se verifica por toda a Grécia. Vinha do Porto com um acordo verbal feito com a coordenadora da PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados) presente na ilha, a Mariana Reis Barbosa, de forma a cooperar com a equipa dessa organização aí destacada, todos eles também em regime de voluntariado. Ainda que à partida fosse trabalhar com uma organização, oficialmente cheguei Lesvos como um voluntário independente, um “pára-quedista”. Na verdade, tinha-me candidatado a voluntário da PAR há algum tempo, mas como não obtive resposta desta (há demasiadas candidaturas para a capacidade de as processar a todas, ao que depois soube), resolvi fazer a viagem pelos meus próprios meios: fixei uma data para a partida, arrendei alojamento para as primeiras semanas e tentei acompanhar tanto quanto possível, através de grupos nas redes sociais, os acontecimentos no local de destino.

A desorientação própria de quem sai de um aeroporto numa cidade estranha ao anoitecer nem se chegou a verificar, no meu caso: a própria coordenadora da PAR fez questão de me receber no aeroporto e de me dar “boleia” até ao alojamento que eu arrendara em Mytilini. Enquanto fazíamos esse percurso ela pôs-me rapidamente ao corrente do que se passava na ilha, e do que esperar ao trabalhar com a PAR. A restante equipa, por coincidência, estava sediada numa pequena casa a muito curta distância da minha.

No dia seguinte conheci os restantes membros da organização em Lesvos: a Sofia, médica, ali há sensivelmente duas semanas, e a Catarina, chegada no mesmo dia que eu. A Ana chegaria um dia depois; o “Manolo”, o Simão, a Joana, o “Manu”, o Jorge, a Graça e a Tânia seriam outros voluntários integrados na PAR, com quem teria a oportunidade de trabalhar e/ou de conviver ao longo do mês de Maio. A Rita, o Jorge e o Miguel, voluntários de um período anterior tinham um “lugar fotográfico” de destaque numa das paredes da casa da PAR e tornaram-se caras conhecidas também.

O campo de refugiados de Mytilini, em Lesvos

O campo de refugiados de Mytilini, em Lesvos

A PAR actua num local fora da cidade de Mytilini, o hotel Silverbay, gerido pela Caritas, onde estão alojados refugiados vindos dos campos de refugiados vizinhos àquela cidade grega, Moria e Kara Tepe. É verdade que recentemente a PAR começou a prestar auxílio também dentro de Kara Tepe, mas isso começou após o meu regresso a Portugal (tanto quanto sei, não há relação de causalidade entre os dois eventos).

Voltando ao hotel: os seus “hóspedes” – cerca de 200 pessoas – são seleccionados devido à sua situação de particular vulnerabilidade dentro do que já é a frágil condição de toda a população refugiada na ilha – desconheço ao pormenor todos os critérios de selecção, mas sei que o hotel funciona sempre na sua máxima capacidade. Assim, tinham lugar no Silverbay, mães ou pais sozinhos com os seus filhos, casais em que a mulher está grávida, idosos, famílias com filhos muito pequenos ou com algum dos seus membros em estado de invalidez (menores desacompanhados e orfãos têm lugar num outro campo, específico para essa situação, em Mantamados, se não me engano).

Quanto às áreas de acção da PAR, estas vão sendo “moldadas” tanto pelas necessidades que se reconhecem no local, como pelas capacidades que cada voluntário da equipa oferece, de acordo com o seus conhecimento e iniciativas. Por exemplo, a Sofia foi responsável pela elaboração de um plano de vacinação das crianças do Silverbay, algo que, tanto quanto sei, é inédito entre os campos de refugiados de Lesvos; a Joana prestou auxílio no esclarecimento da situação legal de refugiados, que continua a não ser transparente nem facilmente acessível a quem mais precisa dessa informação; a Ana, que fala árabe (o que mais de um ano na Jordânia e uma aprendizagem diligente não faz?!) lidava com os problemas diários dos residentes do hotel e prestava o auxílio psicológico possível a miúdos e graúdos; a Catarina e eu, com a ajuda do “Manolo” e mais tarde também o Simão, éramos responsáveis pelo planeamento, execução e monitorização de actividades recreativas e educativas para o grande número de crianças alojadas no hotel; a Mariana lidava com a faceta “oficial” da PAR: articulava a organização portuguesa com as outras presentes na região (o que implica uma assiduidade total a sessões de esclarecimento, reuniões, encontros), avaliava as necessidades prementes no apoio aos refugiados na zona de Mytilini e a forma como a PAR podia estar envolvida, e foi a responsável no terreno pela vinda para Portugal de muitas das famílias de refugiados que nos próximos tempos chegarão ao nosso país.

A partir deste ponto centrar-me-ei no que foi o meu dia-a-dia enquanto voluntário no hotel Silverbay. O que retrato aqui é um inevitavel incompleto da realidade vivida nesse local: muito me escapou, tanto devido à barreira linguística – a necessidade de tradutores de árabe, de farsi e de curdo para inglês é óbvia e urgente – como às funções que me eram reservadas. Ainda assim, pude ver a minha parte e tentarei expô-la breve e claramente.

O hotel é ao mesmo tempo um idílio e um purgatório. Qualquer pessoa sentiria uma centelha de inveja pelo estilo de vida que o Maio grego oferece aos seus residentes. Três ou quatro dias daqueles seriam sem dúvida, um descanso: bom tempo, refeições garantidas, as condições de um hotel com algum nível de conforto, possibilidade de ir regularmente a Mytilini num transporte colectivo organizado – o hotel fica a cerca de 5km da cidade mas o acesso pedonal é muito mau. Para além de uma praia próxima, há um bar, gelados à venda, um campo de jogos, os quartos do hotel têm casa-de-banho privativa e segura (o que nos campos é, ao que parece, um luxo inacessível), um restaurante que serve de cantina, jardins, espaço e a possibilidade de sair do seu recinto. Haveria ainda uma piscina, um campo de mini-golf, um cinema e um ginásio se não estivessem encerrados por questões de segurança e logísticas.

As necessidades básicas estão por demais asseguradas, o local é como uma benção para quem vem dos campos sobrelotados de Moria ou de Kara Tepe. Afinal de contas, o hotel Silverbay é originalmente um resort, e mesmo nas actuais circunstâncias, não perde completamente essa faceta.

Apesar destas condições favoráveis, a incerteza quanto ao futuro dos residentes do hotel são tão grandes quanto as de qualquer outro refugiado na Grécia. Nenhum deles sabe quanto tempo ficará ao certo naquele lugar nem para onde irá depois – se é deportado de volta para a Turquia, ou se lhe é concedido o acesso à entrada na UE.

Os dias estão desocupados, apesar dos esforços das organizações em sentido contrário, o que cria sempre alguma frustração nos residentes; não há um sistema estruturado de ensino para o grande número de crianças que passam os seus dias no hotel. É principalmente nas crianças, penso eu, que se nota que a aprendizagem e o percurso de vida de quem ali está como que “congelou”. Claro que cada um cresce inevitavelmente como consegue e como pode mas não é esta a forma mais aconselhável, enquanto refugiado num país estranho. Notam-se atrasos de faculdades nos campos da aritmética, da escrita, das noções abstractas (evidentes sobretudo através do desenho), da interacção social.

De facto não falamos apenas de um período de meses de desenvolvimento pessoal “truncado” pela vivência em campos de refugiados. Estas pessoas acabaram em Lesvos vindas de locais em estado de guerra há vários anos (Síria e Iraque, por exemplo) e uma tão longa instabilidade tem consequências que são evidentes após um período curto de interacção. Isto tudo sem sequer referir o choque que muitos vivenciaram num ambiente de violência bélica contra populações civis, que apesar de não ser evidente à partida (poucas vezes me lembrei disso, na verdade) está sempre presente nos percursos que cada família fez até chegar àquele local.

Ali encontram-se pessoas com um percurso de vida parado por circunstâncias fora do seu controlo; houve uma total interrupção de projectos e de aprendizagens; simplesmente espera-se fora do que é uma vivência integrada numa sociedade. E a amabilidade e a cortesia com que vi qualquer um dos voluntários serem tratados pelos residentes do hotel confirma (mais uma vez) que os migrantes, ou refugiados, ou que lhes queiram chamar, não são alienígenas nem estranhos a uma interacção e integração pacíficas dentro do que é uma sociedade europeia.

Repito, por entre as dificuldades e as carências emocionais e materiais (o mais basilar está assegurado, mas até quando é que isso é suficiente?), houve um sem fim de gestos de generosidade e de amizade por parte dos residentes a quem passou no hotel para ajudar. Inúmeras vezes os voluntários da PAR (e os de outras organizações, seguramente) foram presenteados de forma espontânea com flores pelas crianças residentes, o que foi “delapidando” aos poucos os jardins do hotel. Sair do recinto do Silverbay de automóvel era um momento sensível, e até arriscado, visto que o veículo era rodeado por crianças que se vinham despedir dos voluntários. Havia convites constantes para ir à praia nadar (o que chegou a acontecer), partilhar uma refeição, recorrentes pedidos de fotografias em conjunto, abraçõs, beijos, pedidos de “colo” (entre os mais novos), brincadeiras, e por aí em diante.

Nas actividades organizadas para as crianças, minha responsabilidade enquanto membro da PAR, era tudo um pouco caótico. Houve sempre alguma dificuldade em conceber algo que abarcasse um intervalo etário tão grande quanto o dos miúdos residentes. Podiam estar no mesmo grupo algumas crianças de 5 e 6 anos e outras de 13 ou 14, sem falar nas idades suas intermédias, e não havia uma clara noção das capacidades de cada um – refiro-me mais uma vez ao que me pareceu um atrasado nível de escolaridade e maturidade de muitas das crianças. Acrescente-se a isto a tal “barreira linguística” (muitas crianças não falam inglês para além de 2 ou 3 frases, e eu também não consigo mais no idioma árabe), a ocasional ausência de tradutores, e uma indisciplina e traquinice endémica aos mais novos.

Assim, nenhuma actividade corria exactamente como o previsto, com constantes pedidos de atenção pelos participantes, com regras completamente ignoradas, com uma ou outra discussão a surgir, mas com um grande entusiasmo e “sede” de estímulo por parte dos envolvidos.

Um exemplo cabal destas algazarras habituais: por iniciativa de uma escola no Algarve, foram enviados como prenda às crianças do hotel Silverbay um conjunto de bonecos cosidos à mão, representativos e da autoria de um grupo de alunos dessa mesma escola. Achou-se por bem, entre os voluntários da PAR, organizar uma actividade em que um segundo conjunto de bonecos seria produzido pelas crianças do hotel (com a ajuda dos voluntários, claro está) para enviar aos alunos da escola portuguesa como forma de retribuição ao gesto generoso.

Dentro do que era um plano de acção bastante simples da actividade, tudo acabou mais ou menos confuso, uma mistura de egoísmo e generosidade: crianças que disputavam bonecos e canetas, desenhavam o nome e sorrisos nos bonecos que faziam, sorriam para a máquina fotográfica com um boneco na mão, fugiam pelo hotel com canetas e bonecos, havia choro, riso e gritaria que quem dirigia a actividade tentava resolver como podia.

Gostaria também de falar de algo que me fez sentir privilegiado em assistir – não que tudo isto não tenha sido um privilégio, mas há algumas situações que pela sua carga emotiva conseguem de alguma forma ser veículos do que foi destilado durante todo um período. Refiro-me neste caso à saída de um grande número de famílias do hotel (uma camioneta cheia) para comparecerem às suas entrevistas de asilo, em Atenas, um passo essencial na sua possível integração num país de acolhimento na UE. Esta ida significa que as famílias ficarão alojadas em Atenas durante tempo indeterminado, à espera do veredicto da audiência: é por isso um adeus ao hotel Silverbay ao fim de meses de estadia.

Assisti a apenas um destes episódios mas houve vários do mesmo género. Os residentes do hotel estavam no salão principal/lobby de entrada, basicamente a mesma divisão, e a tarde ficou tacitamente reservada para despedidas e uma última confraternização entre quem partia e quem ficava.

Uma camioneta estacionou junto à estrada principal, fora do hotel, e deu-se uma pequena “peregrinação” para levar os viajantes à porta da camioneta; ajudou-se com as bagagens, operaram-se as últimas despedidas e acenou-se à efectiva saída do hotel daquele grupo. Os que ficaram regressaram em conjunto ao recinto do Silverbay, refugiados, voluntários, pessoal do hotel. Relembrando este episódio agora, e perdoem-me o excesso poético, foi como assistir a uma aurora boreal J

Podia ainda falar do bom ambiente que havia entre a equipa da PAR, da simpatia que sempre vi nos voluntários das outras organizações presentes em Lesvos, ou do quão linda (à sua maneira) é Mytilini, mas não quero alongar-me demasiado; um parágrafo final, então.

Que conclusões retirar deste período, deste mês? Há sempre os “lugares-comuns” que se podem proferir e normalmente não gosto de concluir os textos que escrevo; é muito fácil acabar por dizer uma banalidade qualquer que “faz o laço do embrulho”, mas há algo que me sinto moralmente obrigado a fazer – agradecer, e a quanta gente! Afinal, para além de uma dose pessoal de livre arbítrio, sou veículo do espírito de que outros me imbuem e as minhas decisões são disso tudo um reflexo. No fim, as minhas acções têm nelas as acções de outros também. Por isso, a quem me apoiou e ajudou antes e durante esta viagem (família e amigos), às pessoas com quem trabalhei da PAR, que são super-gente, aos residentes do hotel Silverbay, que espero vê-los de novo em dias melhores, e a quem em Mytilini me recebeu de forma exemplar, a todos estes um sincero obrigado; construo-me com o que, por bondade, me oferecem.

 

Frederico Babo,

Porto, 9 de Junho de 2016.